Treze hidrelétricas no Garças é decretar a morte do rio, avaliam pesquisadores

por Kayc Alves/Semana7.com.br — publicado 01/02/2018 20h01, última modificação 01/02/2018 20h01
Para a Frente Popular Rios Vivos, se a usina Boaventura passar, as demais previstas para o Garças também não enfrentaram obstáculos

Pesquisadores e representantes de outros segmentos sociais alertaram à população de Barra do Garças, na noite de ontem (31), acerca dos efeitos negativos da instalação de hidrelétricas no rio Garças. O objetivo do grupo é gerar informação para barrar a Usina Hidrelétrica Boaventura, que pode ser instalada entre General Carneiro e Barra do Garças. Eles alertam que a unidade é uma das três, já em fase de licenciamento no Garças, e que estão previstas mais 10 pontos de aproveitamento hidrelétrico no rio.

A reunião substituiu a audiência pública com o órgão licenciador e a empresa responsável pelo projeto, marcada para ontem e suspensa de última hora. A Secretaria de Estado de Meio Ambiente (Sema) e os representantes da Energias Complementares do Brasil (ECBrasil) apresentariam os novos componentes do Estudo de Impacto Ambiental da Boaventura. Segundo informou a Sema, houve “problemas com a equipe da empresa”. O evento deve ser remarcado em um prazo de 60 a 90 dias, seguindo ritos da legislação.

A partir das 17h, o Frente Popular Rios Vivos fez um ato público na praça Sebastião Junior. Os membros do grupo distribuíram panfletos e falaram à população sobre os empreendimentos que podem ser instalados no rio. Os vereadores Dr. Neto, Dr. Cleber e Alex Matos manifestaram seu apoio ao movimento.

Neto destacou que a usina não traz retornos diretos à região do Araguaia. "Essa energia vai ser levada para outra região. Nós vamos ficar com um ônus dessa usina em um rio que já está agonizando. Nós tínhamos que estar falando em preservação de nascentes, em evitar o assoreamento", comentou.

O vereador Cleber lembrou que o Brasil é rico em outras capacidades de geração de energia. "O mundo inteiro está tentando fugir dessa base de hidroenergia e nós insistimos ainda na mesma base. Tivemos um apagão a quatro anos atrás por falta de capacidade hídrica e ficamos amarrados nesse potencial. Temos sol o ano inteiro, então, por que não investir na energia solar?"

Na reunião, a noite, o professor da UFMT Dilermando Pereira Lima, doutor em Ecologia, que estuda efeitos de barragens, falou a população presente sobre os impactos do empreendimento nas comunidades aquáticas do rio. Segundo ele, cada unidade hidrelétrica instalada acima da Boaventura deve multiplicar os efeitos negativos sobre os peixes e outros elementos naturais.

“Esse é o pior cenário que a gente pode ter para um rio”, destaca o pesquisador. Segundo dados da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), como mostrou Dilermando, das 829 centrais planejadas no bioma Cerrado, 59 são no médio e alto Araguaia. Fora as três já em fase de licença ambiental no Garças, mais 10 unidades são previstas para o rio.

Um dos prejuízos apontados decai sobre a diversidade de espécies com importância para a atividade pesqueira. A barragem, segundo Dilermando, bloqueia o trajeto que as comunidades fazem para se reproduzirem, sobretudo, aquelas espécies chamadas migradoras. “Em um cenário com todas aquelas hidrelétricas, você está tirando o sítio de desova de alguns peixes”, explicou. Entre as espécies de interesse econômico e importantes para a pesca na bacia do Araguaia, ameaçadas com a presença de hidrelétricas, o professor destaca a Piraíba, o Pirarara, o Jaus e o Pintado.

Entre os impactos, também se destaca o trânsito de sedimentos no rio, que são as areias e outros materiais que as águas carregam. A barragem bloqueia a carga de sedimento, importante para a formação de praias, entre outras funções ecológicas.

Abaixo da hidrelétrica, segundo o professor e geólogo Silvio Cesar Oliveira Colturato, a água fica mais erosiva e com menos sedimento. Ou seja, além de não repor, nas cheias, as areias necessárias para a formação de praias, ainda corroem as margens dos rios. Os especialistas acreditam que a atividade turística da região sofrerá com a instalação do empreendimento.

O geólogo chama a atenção para o curto tempo de funcionamento do empreendimento, cerca de 40 anos, segundo os próprios estudos da empresa responsável. Ele destaca que diante das falhas identificadas no Relatório e Estudos de Impacto Ambiental, ao não considerarem estudos recentes, “é possível que a vida útil ainda seja menor.”

O indígena Adriano Boro Makuda chamou a atenção para a relação cosmológica que a etnia Bororo tem com o rio. Ele destacou que o empreendimento terá uma série de efeitos em seus costumes, uma vez que impacta elementos como o boto e as lagoas às margens dos rios. Adriano explicou que os botos são sujeitos importantes para a cultura Bororo e as lagoas são consideradas cemitérios. “O rio, para nós, é um espírito. É um parente nosso”, afirmou.

Durante a reunião, foi apresentado um vídeo do Instituto Araguaia, revelando a importância do rio Garças para o Inia araguaiensis, nome científico do chamado boto do Araguaia. Segundo o Instituto, embora os estudos da ECBrasil não indiquem a espécie, já é comprovada a existência dela, que se difere do boto cor-de-rosa, e o uso do Garças como habitat. A entidade afirma que a presença de uma hidrelétrica teria impacto direto na comunidade do Inia araguaiensis, que hoje possui cerca de mil indivíduos.